quinta-feira, 13 de julho de 2017

'Sodade' de Cabo Verde: que língua é essa que nós quase entendemos?

Escrito por Sérgio Rodrigues

Voltei há três dias do Sal, uma das dez ilhas vulcânicas que compõem Cabo Verde, o pequeno país-arquipélago a cerca de seiscentos quilômetros da costa da África. Na geografia afetiva do mundo, funciona melhor identificá-lo como terra da grande Cesária Évora.

A convite do escritor português José Luís Peixoto, andei por lá a comer cachupas, tomar grogue, ouvir mornas e conhecer gente interessante. Difícil imaginar desmentido mais cabal a quem diz que a literatura não serve para nada.

Ah, sim, é que nas horas vagas participei de um encontro literário em que os convidados de diversos países tinham em comum o domínio da língua portuguesa: o Festival de Literatura-Mundo do Sal.

Promovido pelo casal Filinto Elísio (cabo-verdiano) e Márcia Souto (brasileira), sócios na editora Rosa de Porcelana, foi o primeiro evento do gênero num país em que o presidente da República, que discursou na abertura, e o ministro da Cultura, que discursou no encerramento, são escritores de prestígio.

Isso não é banal. Esqueça o paralelo com nossos escrevinhadores Sarney e Temer. Uma diferença, entre outras, é que parece não ter chegado a Cabo Verde a notícia de que a humanidade rebaixou a literatura a adorno luxuoso ou passatempo frívolo. Para eles, o jogo é sério.

Ficar isolado no meio do Atlântico tem suas vantagens.
*
Pensei em providenciar a tradução dos parágrafos acima para o crioulo cabo-verdiano, a fim de dar uma ideia do que é ouvir uma língua na qual, a cada dez palavras, compreendemos perfeitamente quatro, o que equivale a compreender perfeitamente nada.

Mas isso é desnecessário quando se pode ouvir Cesária Évora cantando a bela "Sodade" (vale correr até o YouTube): "Si bô 'screvê' me 'm ta 'screvê be/ Si bô 'squecê me 'm ta 'squecê be/ Até dia qui bô voltà".

A grafia pode ser essa ou outra parecida. A tradução para o português brasileiro é que não varia muito: "Se você me escrever, vou te escrever/ Se me esquecer, vou te esquecer/ Até o dia que você voltar".

Estima-se que entre 90% e 95% do vocabulário do crioulo cabo-verdiano tenham vindo do português, com o restante composto por empréstimos de línguas da África Ocidental.

Se o compreendemos tão mal, isso se deve ao que os linguistas chamam de crioulização, processo de contato entre línguas no qual um idioma não nativo se espalha por transmissão irregular –ou seja, à margem do ensino e de qualquer instância oficial –até se tornar outro.

A instabilidade ortográfica é um dos obstáculos no caminho da consagração do crioulo como língua oficial de Cabo Verde. Além da superfície das palavras escritas, há variações mais profundas de ilha para ilha.

Falado por todo mundo mas informal, oral, familiar, rueiro, o crioulo mora no coração do país enquanto deixa para o português –e um português próximo do lusitano –o papel de única língua oficial, idioma-cabeça usado na administração pública, nas escolas, na imprensa, na literatura.

"Eu não escrevo em crioulo porque quem fala crioulo não lê crioulo", me disse o escritor Arménio Vieira, 76 anos, vencedor do prêmio Camões de 2009.

É provável que isso mude um dia. Nesse meio-tempo, sempre teremos Cesária.

              A cantora cabo-verdiana Cesária Évora 
               em uma das praias de seu país, em 1996



[Fonte: www.folha.com.br]


Nenhum comentário:

Postar um comentário