quinta-feira, 10 de agosto de 2017

'Fogo e fúria': retórica é diversão até para ignorantes como Trump

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante pronunciamento nesta terça (8)

Escrito por Sérgio Rodrigues

Quando o presidente dos Estados Unidos responde a uma bravata do ditador norte-coreano prometendo "fogo e fúria", convém incluir entre os itens a serem levados para o abrigo antinuclear um livro de retórica.

Ignorante em tantas matérias mais simples, Donald Trump não deve saber disso, mas sua ameaça é adornada por uma figura de retórica chamada aliteração. "Fire and fury" nada tem de original: é o nome de uma canção da banda Skillet. Sua brincadeira com o F, porém, é eficaz.

Claro que a aliteração, baseada na repetição de fonemas, funciona com outros sons também. Nem precisamos deixar o campo bélico para encontrar o famoso dito atribuído a Júlio César: "Vim, vi, venci".


Castro Alves preferiu barbarizar baianamente em B quando imaginou uma bandeira nacional "que a brisa do Brasil beija e balança".


Belo, mas bolorento? Se tudo isso parece antiquado, a poesia prostituta da publicidade atesta a atualidade do recurso: "Deu duro? Tome um Dreher".

Arte da eloquência cultivada com paixão na cultura greco-romana, a retórica se preocupa com a melhor forma de usar as palavras para persuadir, engajar, emocionar, ficar na memória. Só vai morrer quando morrer a linguagem.

No entanto, faz tempo que os tomos dedicados à retórica clássica, que já foram de estudo obrigatório, andam pegando poeira no almoxarifado das faculdades de Letras.

Pesa sobre os truques de estilo, também chamados figuras de linguagem, uma pecha de artificialidade, exibicionismo, afetação. O abuso cometido por escritores que não souberam o momento de parar tem muito a ver com isso.

Vejamos estes versos célebres do grande simbolista Cruz e Sousa: "Vozes veladas, veludosas vozes,/ Volúpias dos violões, vozes veladas,/ Vagam nos velhos vórtices velozes/ Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas".


Bonito, certo, mas estará desculpado quem considerar essa volúpia de vulvas vorazes um tanto, como se diz em português castiço, "over".


Não é que as armas do arsenal retórico tenham caído em desuso. É que hoje –com exceção da metáfora e de umas poucas figuras mais populares– elas costumam ser disparadas por quem já não saberia dizer seu nome.

Não que seja necessário. Quem precisa saber que o padre emprega um merisma quando cobra dos noivos fidelidade "na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza"? Entende-se que ele quer dizer "sempre" e que o resto é belezura.

Se até um fanfarrão como Trump pode ter seu momento oratório de Churchill, está provado que a retórica independe de estudos de retórica.

Mas que eles podem ser divertidos, podem. Caso a humanidade sobreviva a esse energúmeno, quem sabe um dia a retórica volte à moda, atualizada e espirituosa como no livro "The Elements of Eloquence", do inglês Mark Forsyth, ainda sem tradução no Brasil.

Ali aprendi que anadiplose é o nome do truque em que a última palavra de um verso ou segmento de prosa é retomada no seguinte. E topei com uma velha crítica gastronômica anadiplótica –e anônima– que levarei na memória até o fim dos tempos:

"Se a sopa fosse tão quente quanto o vinho, e o vinho tão velho quanto o peixe, e o peixe tão fresco quanto o criado, e o criado tão submisso quanto a anfitriã, teria sido um jantar muito bom." 


[Foto: Jonathan Ernst/Reuters - fonte: www.folha.com.br]


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