domingo, 5 de fevereiro de 2017

Canis et circensis

Escrito por Luli Radfahrer

O mundo híbrido de sentimentos e tecnologias é capaz de promover algumas crueldades jamais imaginadas. Um exemplo recente está na Sony, que ao descontinuar o suporte e manutenção de sua linha de robôs caninos AIBO, condena à morte certa os cerca de 150 000 beagles que vendeu entre 1999 e 2005. Diferente dos animaizinhos que supostamente teriam sofrido maus tratos no Instituto Royal de São Roque, o fim da vida desses cãezinhos digitais será tão indolor quanto a "morte" de qualquer outro dispositivo eletrônico.

O mesmo, no entanto, não poderá ser dito de seus pobres donos. Muitos deles, especialmente os mais velhos, desenvolveram com seus mascotes eletrônicos uma relação mais intensa do que normalmente se dá com traquitanas computadorizadas. Para alguns, suas máquinas ganharam vida própria.

É fácil julgar esses usuários. Um robô é mais cômodo e conveniente do que um animalzinho, da mesma forma que um cão ou gato é mais cômodo e conveniente do que uma criança. A realidade, no entanto, é mais complicada e sutil. Por demandarem um longo período de treinamento e adaptação, os bonecos, como os mascotes vivos, criam em seus donos uma forma de dependência psicológica. Por mais que as necessidades e demandas de um aparelho digital sejam construídas, a relação emocional entre pessoas e objetos é mais comum do que se imagina. Ela se dá nos telefones que são customizados com capinhas, protetores de tela e diversos aplicativos e configurações, dando a seus usuários um trabalho que uma TV, uma máquina de lavar ou um liquidificador jamais ousariam.

É uma relação delicada. Quando dá certo, ela oferece a seus donos um ombro amigo, mesmo que artificial, para que frustrações com relação a um mundo exterior cada vez mais frio e competitivo sejam desabafadas. Em sociedades extremamente agressivas, como as do Japão e de Cingapura, em que mostrar qualquer fragilidade (em casos mais extremos, até procurar ajuda psicológica) é considerado sinônimo de fraqueza, esses tamagotchis - vivos ou não - são válvulas de escape possíveis. O mesmo se dá para os espaços sociais agressivos e isolados em que um número cada vez maior de jovens é obrigado a viver, abandonados pelos pais e oprimidos pelo grupo.

AIBO é mais do que um brinquedo. Como várias "loucuras" que mal deixaram o Japão, o cãozinho é pouco conhecido no Ocidente. Acrônimo para Robô de Inteligência Artificial e homônimo para "amigo" ou "parceiro" em japonês, os últimos aibos eram capazes de falar mais de mil palavras, compreender mais de cem e se exprimir em mais de 60 estados emocionais. Os mais empáticos podiam ver o mundo de seu ponto de vista através de uma câmara embutida na cabeça do cãozinho.

É fácil dizer que um robô não é um ser vivo, mas o que identifica a "vida" em uma relação afetiva? Cães são vivos, mas não compreendem. Robôs não são vivos, mas estão cada vez mais próximos de uma simulação bastante razoável de compreensão. Como previu o Teste de Turing, a máquina não precisa pensar, desde que o aparente fazer.

Já faz um tempo que os gêneros fantásticos da literatura lidam com essa dialética existencial. Em 1982, os androides de Blade Runner se comportavam como humanos, sentiam-se vivos e revoltavam-se com o fato de serem temporários. Em Toy Story, o astronauta Buzz Lightyear tem de aprender a notícia deprimente de que, em vez do indivíduo livre e autêntico que acredita ser, ele não passa de um boneco, vendido em grandes quantidades em lojas, idêntico a milhares de outros, banal e com discurso previsível.

Nos planos da Sony, o cãozinho deveria transformar-se numa nova plataforma, como o PlayStation. Mas os primeiros modelos eram limitados, e como aconteceu com o Orkut para o Google, o AIBO nunca passou de um projeto paralelo para a empresa, acostumada a vender produtos às dezenas de milhões, não centenas de milhares. Na virada do século, quando a gigante japonesa entrou em crise, o projeto foi encerrado. A assistência técnica durou mais uma década. Mas o aparelho é muito mais complicado do que um jipe ou fusca, por isso as peças começaram a rarear e as oficinas fecharam. Sobrou para mecânicos informais que canibalizam partes funcionais de alguns para consertar outros.

Tem coisas do Japão que parecem ficção científica. Para a religião xintoísta, muito popular no país, tudo está interligado. Suas divindades, os "Kami", podem ser definidos como espíritos ou essências presentes em cada objeto. Partes de um todo indivisível, eles estão integrados à essência humana numa grande rede complexa. É misticismo, mas está cada vez mais próximo do futuro. Mesmo que seja uma versão de futuro em que não se imagine viver. 



[Fonte: www.folha.com.br]

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