sábado, 22 de abril de 2017

Especialista critica governos e mídia sobre imigrantes venezuelanos em Roraima

Por Rodrigo Borges Delfim
De Boa Vista (RR)

Desde o primeiro dia de trabalhos da missão organizada pelo Ministério Público Federal para conhecer a situação dos migrantes venezuelanos em Roraima, tanto o governo estadual como as prefeituras de Boa Vista e Pacaraima têm cobrado mais ajuda do governo federal para lidar com a questão.
Mas para Gustavo da Frota Simões, professor de Relações Internacionais da UFRR (Universidade Federal de Roraima), essa situação tem sido usada como justificativa para falhas já existentes nos serviços públicos e para conseguir verbas extras junto ao governo federal. “Ao meu ver, essa situação de emergência foi utilizada como um mecanismo para negociar dívidas e receber mais recursos, além de justificar as falhas em serviços públicos que já aconteciam anteriormente à chegada dos venezuelanos”. Segundo Simões, a atuação das três esferas de governo em relação aos migrantes venezuelanos tem sido “desastrosa”.
Em entrevista ao MigraMundo, Simões também critica a cobertura midiática dedicada ao tema, que tem superestimado a dimensão da presença venezuelana e ajudado a reforçar estereótipos sobre os migrantes.
Vista do ginásio que virou abrigo provisório para os imigrantes em Boa Vista.

MigraMundo: Quando exatamente começou esse fluxo mais intenso entre Venezuela e Roraima?
Gustavo da Frota Simões: Esse fluxo começou a aumentar em 2015, com um grande salto em 2016. Fala-se em 30 mil venezuelanos entrando em Roraima no ano passado, embora esses números não sejam muito fiéis. A PF registrou [em 2016] entre entradas e saídas cerca de 100 mil venezuelanos na fronteira com Roraima, número superior aos 60 mil de 2015. De fato, o fluxo aumentou em 2015, atingindo proporções inéditas em 2016. 
Muito se falou da situação de Boa Vista como de emergência por causa das presença dos venezuelanos. Essa situação foi real ou foi superestimada?
Superestimada com certeza. Há de se entender a situação do governo de Roraima como um Estado pobre e com um governo que depende sobremaneira de remessas do governo federal. Ao meu ver, essa situação de emergência foi utilizada como um mecanismo para negociar dívidas e receber mais recursos, além de justificar as falhas em serviços públicos que já aconteciam anteriormente à chegada dos venezuelanos. 

Qual sua avaliação da cobertura midiática sobre o tema?
De uma maneira geral, extremamente preconceituosa. Os jornais locais tratam o caso da migração com olhos de quem não entende o assunto e tem contornos de xenofobia. O migrante ou o “venezuelano” é sempre autor de crime, causador de aumentos de prostituição, drogas, doenças e todos os males. A impressão que se tem é de que, antes da chegada em maior número dos migrantes, Roraima era uma potência mundial.

Na sua opinião, o fato de serem migrantes venezuelanos contribuiu para uma visão negativa sobre o fluxo?
Sem dúvida. Até alguns anos atrás, eram os roraimenses que iam à Venezuela migrar para regiões de garimpo, fazer turismo ou compras. Em alguns casos, esses roraimenses foram mal tratados, extorquidos e o sentimento negativo é grande com relação aos venezuelanos. Todo o tratamento ruim dado a esses migrantes é justificado no sentido de que “se fôssemos nós lá, seria muito pior”.

Desde quando há o centro para imigrantes em Boa Vista? Ele tem um tempo determinado de funcionamento?
A Criação do Centro de Referencia ao Imigrante aconteceu no ano passado [mais exatamente em 27 de dezembro]. Antes era realizado atendimento em um terreno cedido por um sindicato, Desde final de dezembro o centro passou a ser no ginásio Ottomar de Souza Pinto [mais conhecido como ginásio da Pintolândia, local atual]. Todo o atendimento é realizado com alguma ajuda do governo do Estado e sob os cuidados da Fraternidade. Essa ajuda tem diminuído cada vez mais e a impressão que dá é de que, duma hora para outra, o governo sairá de lá.

Como você avalia a atuação do governo (local e nacional) na gestão da migração venezuelana em Roraima?
Avalio da pior forma possível. O governo federal não realiza a sua parte. Desde a PF que não realiza os atendimentos e inventou um protocolo de refúgio, o que deixa os solicitantes em um limbo migratório por 6 meses ou mais, ate a própria ajuda do governo federal que parece que nunca chegou. O governo estadual esboça uma reação com a Defesa Civil, havia cedido caminhões e banheiros químicos para o centro, mas nem isso mais, desde o Carnaval. Por último, há uma total ausência da prefeitura, que inclusive descumpre ordem judicial de auxiliar os migrantes. É um absurdo toda a atuação governamental nesse caso.

Marco da fronteira entre Brasil e Venezuela. Fluxo entre os dois países ganhou destaque no noticiário nos últimos meses.
Na sua opinião, qual é o grande problema atualmente na questão migratória entre Roraima e Venezuela?
São dois os grandes problemas. Por um lado, há uma total ausência dos órgãos governamentais que não auxiliam em nada, seja com recursos ou serviços. Pior, ainda dificultam e descumprem ordens judiciais. Por outro lado, há pouca atuação da sociedade civil, seja cobrando o governo, seja atuando por meio de pastorais e outros centros. Não ter uma casa de passagem ou do migrante piora tudo. Os venezuelanos estão quase que por conta própria, tendo seus direitos violados e com pouco ou nenhum auxilio, salvo alguns casos pontuais e emergenciais.


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[Fonte: www.migramundo.com]

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